
“Há quem passe pela floresta e só veja lenha para a fogueira”.
Tolstoi
O russo Lev Nikoláievich Tolstói é considerado um dos maiores escritores de todos os tempos, e possivelmente o maior nome da narrativa realista. Suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz, uma lição de otimismo que descreve a invasão de Napoleão na Rússia de 1812, e Anna Karenina, onde retrata e critica a sociedade hipócrita da época czarista. E é disso que falaremos: hipocrisia.
O conto Bola de Sebo (Boule De Suif), do autor francês Guy de Maupassant, inspirou Chico Buarque a compor Geni e o Zepelin, uma canção que retrata claramente como os interesses momentâneos afetam as atitudes das pessoas. Na versão brasileira, um invasor chega num Zepelin e promete destruir a cidade, a menos que a Geni, um travesti que sempre foi criticado e apedrejado, passe a noite em sua companhia. A população, temendo a aniquilação, sai em passeata e sinceramente pede:
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni
Tocada, ela cede aos apelos e se entrega à voracidade carnal do tal invasor, até saciá-lo. Este nobre senhor parte logo em seguida, livrando a cidade da destruição. E a população se lembra do modo que realmente enxergam a Geni, e voltam a cantar:
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni
Segundo o dicionário: Manifestação de fingidas virtudes, sentimentos bons, devoção religiosa, compaixão etc.; falsidade. Há muito disso na nossa política, negócios, relacionamentos, mas vou falar sobre quando fingimos para nós mesmos. É muito comum conhecer alguém que passou por uma situação muito difícil e que se sentiu “obrigada” a fugir para um mundo de fantasia. Mas é possível assassinar a verdade, fugir de nós mesmos, visto que estamos sempre juntos? Uma vez li: quanto mais tentamos fugir dos nos problemas, mais eles nos perseguem. Basta tentar correr da própria sombra para descobrir que ao meio-dia ela te alcançará, e é assim em muitos outros casos. Tudo bem que nem sempre é fácil enfrentar, o momento pode não ser o ideal, mas o adiamento fortalece o outro lado. Se você não toma uma decisão, já tomou a decisão de não fazer nada. A vida é um sopro e a morte também, o primeiro nos traz e o segundo nos leva, é tudo muito rápido e perdemos tempo com algo que no fundo é ridículo. Chega de se lamentar, de mascarar, de sofrer e, principalmente, de alimentar a dor. Pára com isso, antes que a nova gramática seja aplicada.
O compositor, cantor, violonista e percussionista Luiz Gayotto escreveu a respeito da Hipocrisia:
Pensa que eu não sei que você disse o que não quis
eu respondi o que pensava que você queria ouvir
Pensa que eu não vi o que todo mundo viu
Faz de conta que só eu não percebi
Que era melhor fazer de conta
Que o que eu vi não existiu
Isso é mera hipocrisia
É falsa devoção
É triste alegria
Fingimento de emoção
Isso é mera hipocrisia
Afetação de uma virtude
É desvio de sentimento
Negação de juventude
Que impregna com o tempo
O que eu senti
Não era falso ou ilusão
Mas às vezes é melhor subverter uma emoção
Que põe tudo a perder e põe tudo a perder
Mesmo que se perca a noção do que é verdade, o que é mentira
Mesmo que nebuloso
quem é o fiel, quem o traira
Olhou mas fez que não
Quis, negaceou, Cedeu,
os olhos reprovaram O que queria
e não provou
Deu licença e educação (em nome do que acha educado)
Mas a verdade, que importa, ficou trancada do outro lado.
O filme Ônibus 174 conta a história de Sandro do Nascimento, um menino carioca de 8 anos que viu sua mãe, grávida, ser morta a facadas. Uma semana depois ele foge para as ruas , onde passa a viver. Sobreviveu à “Chacina da Candelária“, quando 8 crianças foram assassinadas por policiais. No dia 12 de Junho de 2000, aos 22 anos, tentou assaltar um ônibus da linha 174 ocupado por 11 pessoas. O evento se prolongou e a polícia cercou o veículo. Após conversas que duraram 5 horas, Sandro saiu do ônibus com o revólver apontado para uma das reféns. Um dos policiais, numa manobra infeliz, disparou em sua direção com uma submetrabalhora, mas o tiro mortal acertou a refém na cabeça. Sandro foi colocado num camburão, onde morreu por asfixia a caminho da delegacia. De alguma forma, um ciclo foi completado. Este é um daqueles filmes que nos deixam na dúvida sobre quem é vítima, e eis aí algo que sempre ouvi: o benefício da dúvida. Benéfico é o que faz pensar, raciocionar, pesar e tomar partido.
Tinha John Lennon razão quando citou: A ignorância é uma espécie de benção. Quem não pensa, não sofre. Sem pensar, por outro lado, vive-se num mundo ireal, restrito, e por que não, hipócrita. Um mundo de alegrias alicerçado em massinha para modelar.
Em seu poema Acontecimento, Vinícus de Moraes disse:
Haverá na face de todos um profundo assombro
Na face de alguns risos sutis cheios de reserva
Muitos se reunirão em lugares desertos
E falarão em voz baixa em novos possíveis milagres
Como se o milagre tivesse realmente se realizado
Muitos sentirão alegria
Porque deles é o primeiro milagre
E darão o óbolo do fariseu com ares humildes * leia a nota no final do post
Muitos não compreenderão
Porque suas inteligências vão somente até os processos
E já existem nos processos tantas dificuldades…
Alguns verão e julgarão com a alma
Outros verão e julgarão com a alma que eles não têm
Ouvirão apenas dizer…
Será belo e será ridículo
Haverá quem mude como os ventos
E haverá quem permaneça na pureza dos rochedos
No meio de todos eu ouvirei calado e atento, comovido e risonho
Escutando verdades e mentiras
Mas não dizendo nada
Só a alegria de alguns compreenderem bastará
Porque tudo aconteceu para que eles compreendessem
Que as águas mais turvas contêm ás vezes as pérolas mais belas.
Todo mundo compreende isso perfeitamente: ninguém sabe de nada, ninguém duvida de tal coisa e todos estão de acordo. E a vida segue.
* óbolo do fariseu: neste caso, refere-se a dar esmola a alguém que te despreza, que é hipócrita com você, que duvida da tua fé.