Vernáculo havia avançado pela madrugada às voltas com um projeto destinado a erradicar da Propaganda & Publicidade Ltda. o uso do abominável gerundismo. Era diretor de comunicação e marketing e desejava ardentemente extirpar a praga do seu ambiente de trabalho, já que não podia varrê-la do território nacional. Para os que já pertenciam ao quadro de funcionários, preparara um manual em que discorria exaustivamente sobre a etiologia da doença e exigia que fosse rigorosamente respeitado. Para os candidatos às vagas, estava preparando um tratado sobre normas de preservação da língua portuguesa que não raras vezes o fazia adentrar a madrugada: o objetivo era que a empresa só admitisse profissionais preparados contra os abusos à língua de Camões. Combatente obstinado, aliou-se a todos os movimentos que lhe propiciassem a oportunidade de esgrimir contra a aberração lingüística. Escolhera um alvo para lançar sua indignação: secretárias, atendentes e recepcionistas, classes a que atribuía a introdução desse câncer na linguagem coloquial. “Por que cargas-d’água essa gente adora falar dessa maneira?”, perguntava-se sempre.
Naquele dia, levantou-se da cama, penosamente, e dirigiu-se ao banheiro. Sentiu uma dor repentina no peito e uma dormência nos ombros, mas não deu muita importância. Apenas levou a mão à altura do coração e a manteve ali por alguns segundos. Deviam ser mais de 8 horas, pois lhe chegava aos ouvidos a voz da apresentadora de TV, a cujo programa sua mulher assistia diária e religiosamente. “Hoje vamos estar apresentando uma deliciosa receita de chocolate”. Foi a primeira aguilhoada do dia. A frase devassou-lhe o espírito e remexeu lá dentro, como broca de dentista cascavilhando um dente, o que aumentou o propósito de lutar contra o gerundismo. “Será mesmo que ouvi a apresentadora falando dessa maneira. Não … não … não pode ter sido … que horror! Devo ter-me enganado”, concluiu.
Vernáculo entregou-se ao conforto que lhe proporcionava a ducha de água morna e procurou relaxar. Entoou alguns mantras, pensou num lugar distante e paradisíaco, viu mentalmente muito verde, ouviu o coral dos passarinhos, fez uma verdadeira ablução mental e quando se sentiu limpo saiu do banheiro, cantarolando alguns versos de uma canção muito executada nas rádios e recriminou-se por se deixar contaminar com melodia tão medíocre. Vestiu-se e quando se preparou para descer as escadas sua mulher sapecou, lá do rés-do-chão:
“Vernáculo, você pode estar tirando uma receita da Ana no computador?” Quase soltou um berro estrondoso ao ouvir essa pergunta, mas conteve-se, engolindo a ira que fez estremecer seu corpo inteiro. Era o começo da apoplexia. “Bem”, pensou, “devo dissimular que estou ouvindo isso de minha mulher. Preciso estar me apressando para ir ao laboratório tirar o eletrocardiograma que o médico exigiu”, concluiu e só depois percebeu que a frase havia escapado à sua censura. “Valha-me Deus, nem brincando, a doença está tomando conta de mim.”
Coitado do pobre Vernáculo, o vírus da contaminação começara a ação deletéria. Era o começo da bancarrota. Tomou o café, pedindo a Deus que sua mulher não proferisse nenhuma frase. Não queria correr o risco de ouvi-la emitindo o horrível solecismo. Por causa dele, passara a antipatizar com muita gente e não queria que um conúbio tão bem sucedido tivesse fim por causa de um vício de linguagem. Amava sua mulher e esse amor não poderia ser posto à prova com questões tão triviais, conquanto igualmente repugnantes.
- Amor, você pode …
Vernáculo, percebendo em que ia redundar a fala da mulher, levantou-se e intercedeu súbita e peremptoriamente:
- Sim, posso, sem dúvida … qualquer coisa eu posso …
E foi se levantando da mesa, sob o olhar atônito da mulher.
- Preciso estar me apres … opa, pela segunda vez … não admito … não admito … isso não pode estar acontecendo comigo …
E, já apoplético, disparou contra a mulher, bradando, uma inopinada ameaça:
- Nunca mais me use esse gerundismo dentro desta casa ou eu a porei no olho da rua.
A mulher, ainda estática, não entendia nada do que estava ouvindo. Vernáculo nunca levantara a voz daquela forma com ela, nem tampouco mencionara a possibilidade de separação entre eles.
“Gerundismo? Que negócio é esse? Seria algum nome para uma falha sua? Intelectual que é, sempre profere palavras estranhas … esse Vernáculo … Taí no que dá ler tantos livros … Será que tá ficando lelé da cuca?”
No laboratório, Vernáculo dirigiu-se à recepção e perguntou à atendente o que fazer para tirar o eletrocardiograma. Ela entregou-lhe uma senha e disse: “O senhor pode estar se dirigindo à sala de espera ali à sua frente e estar aguardando sua vez pelo painel eletrônico”.
O coração de Vernáculo disparou, o mundo rodopiou, sentiu novamente a dor no peito, os dedos fervilhavam, os braços pareciam dormentes. Vernáculo pensou em aplicar um sermão na moça, na frente de todo mundo, humilhá-la, fazê-la sentir a crassa ignorância, todavia encontrou forças para dominar a fúria vulcânica que se avolumava em suas entranhas. Não podia mais suportar o ódio que vinha incubando por aquela anomalia na comunicação verbal.
Nesse momento, veio-lhe à mente a figura de Bárbara. Fora a partir dela que começara seu ódio pelo hediondo gerundismo. Toda frase que a desmiolada proferia tinha de conter a nauseabunda expressão. “O senhor pode estar falando … O senhor pode estar telefonando … Fulano de tal vai estar ligando …” Não tinha dúvida de que era ela a responsável por tudo que lhe estava acontecendo. O motivo de estar trabalhando até tarde da noite, de estar brigando com a mulher, quem sabe até por uma fortuita separação. Era ela sem dúvida quem estava arruinando sua saúde e poderia até causar lhe a morte.
Com essas idéias, Vernáculo pensou se não seria o caso de provocar a demissão daquela mulher, não abertamente para não caracterizar perseguição, antes sutilmente por meio de um plano bem arquitetado, diabólico, para enxotar, merecidamente, a pouco instruída da empresa. Bárbara pagaria por todos, Vernáculo a transformaria na mártir dos gerundistas. Ia-lhe mostrar com quantos paus se faz uma canoa. Essa idéia insuflou-lhe um sentimento de felicidade, uma catarse.
- O senhor pode estar se encaminhando para a sala de exames agora – veio dizer-lhe uma funcionária.
Vernáculo mirou profundamente a atendente e imaginou estar diante da própria Bárbara. De seus olhos saltavam chispas. Sentiu um ardor muito intenso espalhar-se por seu rosto. Riu maquiavelicamente e decidiu mandar os exames às favas. Saiu do laboratório quase correndo. Queria chegar o mais rapidamente possível à empresa. Queria castigar a funcionária. Nem esperou o elevador e começou a correr escadas acima. No último lance, sentiu novamente uma forte dor no peito, a respiração lhe faltou, o mundo girou, Vernáculo perdeu o equilíbrio e rolou pelos degraus. Imóvel, olhos arregalados, como a mirar o topo da escadaria. A língua portuguesa perdera um paladino. A última flor do Lácio ficaria esperando por mais um longo e tenebroso tempo alguém que viesse lutar por sua integridade.
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