
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro,
Dizendo-me Aqui estou!
(Isso é talvéz ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Como o modo de falar que reparar para elas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo ávores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como ávores e montes e flores e luar e sol.
Alberto Caeiro
Gosto muito deste poema, pois fala da presença de Deus em tudo em todos e a toda hora . Fernando Pessoa, mesmo sendo ateu, segundo dizem , soube falar de Deus de maneira muito intensa e bela .
Acho magnífica a forma como Fernando Pessoa aborda o que é Deus sem se prender em dogmas religiosos. Aliás, este belo poema nos mostra que Deus somos nós mesmos e o mundo que construimos, ou seja, Deus é tudo e nada ao mesmo tempo.